quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sobre mordidas

Hoje a mamãe foi me visitar lá na escola na hora do almoço. Aí a tia Luana, minha professora do Maternal II, comentou que eu estou mordendo muito. Vamos ver o que a mamãe refletiu sobre isso:

"Pois é, quando eu achei que essa fase tinha passado, ela retorna com toda a força! Quase todos os dias estou recebendo bilhetinhos na agenda: 'O Davi mordeu um coleguinha'. 'O Davi mordeu um coleguinha nas costas. Peço que converse com ele'. Conversar o quê? Então fui almoçar com a coordenadora pedagógica da creche, que me disse o seguinte: Não tem o que fazer, é preciso deixar passar essa fase. Mas todas as vezes em que ele tentar morder alguém, diga que é feio, que faz dodói e que a mamãe fica triste. E mude de assunto. Criança não presta atenção em dircursos muito longos.

Como sei que esse é um problema que angustia muitas mães, resolvi procurar algum post na imensa lista de blogs sobre maternidade que sigo e fiquei surpresa por não achar nenhuma linha sobre o assunto. Então resolvi eu mesma buscar alguma explicação e compartilhar esse assunto tão delicado com as leitoras do Blog do Davi. Encontrei alguns especialistas falando sobre o tema e, abaixo, separei o que achei de mais interessante:

O QUE É A MORDIDA?

"A fase oral é dividida em duas etapas, a de sucção e a de mordida. Na fase da mordida há uma tendência a destruir, morder, triturar o objeto antes de incorporá-lo. Essa fase é dividida em duas características principais, sendo oral receptiva, quando o sujeito não passa por privações, tornando-se uma pessoa muito generosa e oral agressiva que aparece uma tendência a odiar e destruir, a ter ciúmes da atenção que outros recebem, a nunca estar satisfeito com o que tem e a desejar que os outros não tenham algumas coisas, mesmo que não as queira para si. É como se a pessoa quisesse se vingar das frustrações que o período de amamentação lhe causou". (Flávio Fortes D'Andrea, professor de Psicologia Médica)

"As crianças estão em fase de amadurecimento e consequentemente estão aprendendo a exteriorizar suas angústias; medos, frustrações, anseios e descobertas. Através do sistema nervoso central começam a elaborar o tato, o olfato, o paladar, a visão, e a audição. Consequentemente com as novas descobertas aprendem a usar as mãos, os dentes, como instrumentos de defesa". (Albertina Chraim, psicopedagoga)

"A mordida faz parte dos mecanismos de defesas mais primitivos do homem". (Albertina Chraim, psicopedagoga)

EM QUE FASE ELA COSTUMA OCORRER?

"Em primeiro lugar, é importante que se saiba que esse comportamento de morder faz parte do desenvolvimento, é normal até os três anos de idade e passa quando a criança adquire novas habilidades". (Danielle Dittmer, psicóloga)

POR QUE A CRIANÇA MORDE? 

"A maior parte das crianças morde para se comunicar, pois ainda tem limitações de vocabulário ou lentidão na articulação das palavras". (Helena Samara, dona de escola infantil)

"Muitas vezes, crianças que mordem na escola são crianças mais possessivas que querem atenção exclusiva, filhos únicos, filhos de pais que estão em processo de separação, ou ainda crianças que estão com irmãozinhos recém-nascidos em casa. De alguma forma ele precisa extravasar suas angustias e ansiedades". (Albertina Chraim, psicopedagoga)

"Morder também pode ser uma maneira da criança lidar com sua ansiedade, já que ainda não consegue organizar e compreender direito suas emoções, ela descarrega o ciúmes, a insegurança na mordida". (Danielle Dittmer, psicóloga)

"As mordidas acontecem em situações de disputa por brinquedos ou quando entra uma criança nova no grupo, causando emoções como insegurança, medo da perda ou ciúmes do novato, já que a professora está com a atenção mais voltada para o mesmo. Como não consegue administrar seus sentimentos, manifesta o incômodo através da mordida". (Jussara de Barros, pedagoga)
"É comum a vítima ser o melhor amigo. Elas mordem para se apropriar do que o outro tem de interessante".  (Gisele Jardim, presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Paulista de Pediatria)

O QUE OS PAIS DEVEM FAZER?
  
"É preciso ter calma quando acontece este comportamento, conversar com a criança, mostrar que dói. Com o tempo, conforme a criança vai aprendendo a se comunicar melhor através da linguagem, começa a trocar as mordidas pelas palavras, conseguindo aos poucos, organizar e expressar seus sentimentos e insatisfações de outra forma". (Danielle Dittmer, psicóloga)

"Não brigue com a criança, mas seja firme. Explique que ninguém gosta de sentir dor e peça ajuda para curar o machucado do colega. Descubra o que motivou o comportamento e mostre outras formas de expressão". (Revista Escola)


O QUE OS PAIS NÃO DEVEM FAZER?

"Cabem aos pais, professores, não supervalorizarem a mordida em si, e sim as causas que levaram uma a morder, e a outra a permitir ser mordida". (Albertina Chraim, psicopedagoga)

O QUE A ESCOLA DEVE FAZER?

"O professor precisa perceber qual sentimento está em jogo para agir sem drama". (Denise Argolo Estill, psicopedagoga)

"Peço à criança que mordeu que ajude a massagear a outra, a pôr gelo no ferimento. O colega mordido vai se sentindo melhor até parar de chorar". (Elsie Clarie Canelas, professora)

"Um trabalho em grupo, com argila, onde se trabalha a função da boca, dos dentes, da língua, da saliva, dos lábios, etc., acaba sendo um instrumento pedagógico bastante eficaz". (Albertina Chraim, psicopedagoga)

"Seja qual for a causa, é importante não taxar a criança de mordedora, porque isso vai gerar a expectativa de que ela volte a morder, o que pode realmente levar a mais mordidas. O melhor é tratar o fato com tranquilidade, e mostrar à criança que o que ela faz provoca dor, machuca. E, além disso, ensinar que existem outras formas de expressar seus sentimentos".

(Ana Maria Melo e Telma Vitória, autoras do texto "Morididas: agressividade ou aprendizagem?")



Compreender essas questões ajuda muito. Mas, ainda assim, o desafio permanece".

Meu mordedor (de calça amarela) tirando uma soneca depois do almoço

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